Existe uma despesa que a empresa conhece com um ano inteiro de antecedência e mesmo assim costuma tratar como imprevisto: o reajuste salarial definido na convenção coletiva. A data-base não muda. O percentual varia, mas dentro de uma faixa razoavelmente previsível. Ainda assim, todo ano o aumento chega e alguém precisa achar dinheiro para pagar o retroativo.
O que se sabe e o que não se sabe
Sabe-se o mês da data-base da categoria, quais funções estão enquadradas, qual o piso vigente e quais cláusulas econômicas costumam ser negociadas. Não se sabe o percentual exato, que sai da negociação entre sindicato patronal e sindicato dos trabalhadores, nem a data em que a convenção será registrada.
Planejar não exige adivinhar o número. Exige trabalhar com uma faixa. Um cenário conservador, um provável e um otimista, aplicados sobre a folha atual, já dão ao empresário a dimensão do impacto e permitem decidir antes, e não depois.
O reajuste não mexe só no salário
Este é o ponto que mais surpreende. Ao aplicar o percentual sobre a remuneração, sobem junto o FGTS, o INSS patronal, o valor da hora extra, o adicional noturno, a provisão de férias com o terço constitucional e a provisão do décimo terceiro. Em muitos casos sobem também o piso de benefícios previstos em convenção, como vale-refeição e auxílio-alimentação.
Ou seja: um reajuste de 5 por cento na remuneração não gera 5 por cento de aumento no custo total de pessoal, gera mais. Quem só multiplica o salário pelo percentual subestima a conta. Já detalhamos essa composição no artigo sobre o custo real de um funcionário.
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Falar sobre BPO FinanceiroO retroativo chega tudo de uma vez
Quando a convenção é assinada meses depois da data-base, a empresa paga as diferenças acumuladas de forma concentrada, muitas vezes em uma ou duas folhas. Uma empresa com trinta pessoas e três meses de retroativo pode ver uma saída extraordinária relevante em um único mês, no meio de um trimestre que já tinha os próprios compromissos.
A defesa é provisionar. A partir da data-base, mesmo sem convenção assinada, reserve mensalmente a estimativa da diferença. Quando o acordo sair, o dinheiro já está separado e o pagamento vira transferência de uma reserva, não um aperto no caixa. É o mesmo princípio que se aplica às demais provisões trabalhistas.
Como colocar isso no orçamento
Comece pela folha atual detalhada por função e por centro de custo. Aplique os três cenários de reajuste sobre a base e recalcule encargos e provisões, não apenas a remuneração. Some os benefícios com piso definido em convenção. Some o retroativo estimado, distribuído no mês provável de pagamento.
Com esse número em mãos, a pergunta muda de qualidade. Deixa de ser quanto vou pagar de aumento e passa a ser o que precisa acontecer na receita ou na margem para absorver esse aumento sem comprimir o lucro. A resposta pode envolver reajuste de tabela, revisão de escala, redução de horas extras ou ganho de produtividade. Todas exigem tempo, e é por isso que a conversa precisa acontecer meses antes.
Aproveite para auditar antes de reajustar
Reajustar uma folha com erros multiplica os erros. Antes da data-base, vale conferir enquadramentos, adicionais pagos indevidamente, horas extras habituais e benefícios concedidos fora da regra. É um trabalho que costuma se pagar sozinho, conforme mostramos no texto sobre auditoria da folha de pagamento.
A folha é, na maioria das PMEs, a maior despesa do resultado. Tratar o seu reajuste anual como surpresa é abrir mão de planejar justamente a linha que mais define o lucro. Se quiser apoio para estruturar esse orçamento, conheça as soluções da BeWolf.
